Uma das mais avançadas legislações ambientais do mundo, mas ninguém obedece. Por que?

Archive for July, 2008

Ganhar Dinheiro Plantando Árvores

Por Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e professor do Departamento de Economia Rural da Unesp – Jaboticabal, foi ministro da Agricultura. Artigo publicado na “Folha de SP

Plantar florestas, mesmo como atividade secundária na fazenda, pode dar dinheiro, deve dar dinheiro. Plantar florestas, mesmo como atividade secundária na fazenda, pode dar dinheiro, deve dar dinheiro.

Há cerca de 20 anos, fiz uma viagem à Suécia, para conhecer seu cooperativismo e sua agricultura, atividade difícil em razão do clima que impõe apenas seis ou sete meses por ano para as operações, do plantio à colheita.

Quase todas as fazendas possuíam uma pequena área florestada. Quando começava a nevar, já em novembro, o agricultor ia até sua mata, cortava um número x de árvores, removia-as para a sede e passava o inverno trabalhando a madeira, serrando, aparando, fazendo tábuas, vigotas, peças para móveis etc.

Quando a primavera dava seus primeiros sinais, ele vendia a madeira preparada e plantava, na mata, o mesmo número x de árvores que havia cortado.

Interessado nesse trabalho, perguntei a um fazendeiro quem fiscalizava isso. E ele, estranhando a pergunta: “Fiscalizar o quê?”.

Respondi imediatamente: “Quem fiscalizava o fato de ele repor as árvores que tinha cortado”. No mesmo instante me dei conta da estupidez da pergunta e da distância oceânica que nos separava, culturalmente.

Claro, a floresta era uma atividade econômica para ele, uma atividade produtiva rural, como os grãos que semearia na primavera. E, ainda por cima, fazia uma contribuição positiva -e voluntária- em defesa do ambiente, mormente considerando que a mudinha plantada demoraria uns 40 anos para ser colhida! Só na outra geração! Mas calou fundo a idéia de eco-eco, ecologia com economia.

Anos mais tarde, em visita a uma fazendinha na Holanda, mês de março, primavera começando, reparei que, no pequeno gramado em frente à casa, aparado na véspera, havia três estacas fincadas, em torno das quais, em um diâmetro de 50 cm/60 cm, a grama não havia sido cortada.

Questionado sobre o porquê daquilo, o agricultor me contou que naquela área havia um bulbo que na primavera brotava, produzindo flores que estavam em extinção na região, e ele recebia uma subvenção para preservá-las. Por isso não cortava o gramado ali, com medo de cortar pequenas folhas que por acaso já estivessem nascendo.

De novo me encantou o modelo: lá, dão um prêmio para quem preserva; aqui, uma multa para quem não preserva. Lá, o positivismo; aqui, o negativismo.

Ambas essas histórias poderiam servir de motivação nas nossas intermináveis discussões sobre o tamanho da reserva legal, sobre a APP (área de preservação permanente) fazer parte da reserva legal, sobre a compensação de áreas fora do perímetro da fazenda, sobre exploração sustentada da reserva legal e, eventualmente, até da APP, e assim por diante.

Deveríamos construir um modelo de florestamento com essa visão positiva que incorpore o tema da economia no processo florestal produtivo, mesmo que essa não seja a principal atividade na propriedade rural.O agricultor precisa ser estimulado a cuidar do ambiente, para além da questão cultural e/ou educacional.Ecologia pode e deve dar lucro. Já existem instituições que cuidam da prestação de serviços ambientais e resolvem isso, inclusive com remuneração por meio de CDM.

Da mesma forma, já existem modelos de certificação da madeira produzida com esse tipo de exploração sustentada. E não é só: as produções de plantas medicinais, aromáticas, ornamentais são outras atividades em florestas plantadas, especialmente quando as árvores são nativas da região.

Plantar florestas, mesmo como atividade secundária na fazenda, pode dar dinheiro, deve dar dinheiro. E a contribuição ambiental virá muito mais expressiva.(Folha de SP, 1º/3)

Notícia retirada do link: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=54625
Notícia retirada do informativo Jornal da Ciência, divulgado pelo Órgão da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (http://www.jornaldaciencia.org.br/index2.jsp)

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