Uma das mais avançadas legislações ambientais do mundo, mas ninguém obedece. Por que?

Archive for December, 2008

Seringueiros X IBAMA

O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri divulgou nota criticando operação do IBAMA na Resex Chico Mendes.
As Resex foram criadas com a convicção montada de que o extrativismo era suficiente para garantir bem estar aos seringueiros e extratores. Apesar de não resistir a um escrutínio mental feito com insenção todos passaram a crer nessa convicção. Agora ela começa mostrar a carranca.
Os seringueiros da Resex Chico Mendes estão sendo perseguidos e multados pelo IBAMA. Teriam eles virados vilões do Meio Ambiente?
O movimento ambiental terá condições de pensar sobre isso, ou simplesmente virará as costas como faz quando suas convicções dão sinais de estarem erradas?
Terão os ambientalistas grandeza suficiente para se auto avaliarem?

Segue a íntegra da Nota do Sindicado. Atentem para a classificação de pecuária dada pelos seringueiros.

“Comemorar a Semana Chico Mendes com repressão aos seringueiros, sem dúvida é manchar toda a luta que tivemos até aqui!

O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri repudia veementemente o caráter de perseguição e criminalização dos seringueiros e moradores da Reserva Extrativista Chico Mendes, efetuada pelo IBAMA na operação denominada de “Reserva Legal”, quando moradores foram multados e outros ameaçados de serem retirados da Reserva, por estarem cometendo infrações ao meio ambiente.

Nosso repúdio e indignação têm por base os seguintes motivos:

1) Nestes dezoito anos de criação da Reserva não existe uma política que garanta uma renda para os seringueiros viverem com dignidade exclusivamente da produção extrativista. Portanto a utilização da atividade da pecuária é um complemento de renda que tem sido utilizado pela grande maioria dos moradores;

2) Pouco existiu um trabalho de esclarecimento e conscientização das regras de uso e manejo da RESEX que abrangesse um número significativo de famílias;

3) O Plano de Manejo e de Utilização da RESEX não é de conhecimento da grande maioria das famílias;

4) Os seringueiros não podem ser responsabilizados pela mudança do clima do planeta, este se deve a ação dos grandes pecuaristas, mineradoras e do grande capital;

5) As multas aplicadas inviabilizam seu comprimento. As famílias de seringueiros têm uma vida de duro trabalho na floresta e o pouco rendimento e benfeitorias conseguidas pelas famílias não podem ser disponibilizadas para o pagamento destas multas porque isto inviabilizaria a reprodução das próprias famílias.

Os seringueiros e trabalhadores rurais do Acre lutam com todas suas forças pela posse de suas terras que secularmente foram ocupadas por seus antepassados. A luta que custou a vida de tantos e estimados companheiros não pode ser em vão.

Se ontem lutamos contra o latifúndio, inimigo declarado, parece que a política governamental tornou-se auxiliar dos interesses do latifúndio, que sempre tentou ignorar os que vivem da terra com trabalho.

Hoje temos na política ambiental de criminalização dos pequenos produtores um novo impedimento para a garantia de atividades que permita aos seringueiros uma vida digna.

Parar imediatamente a repressão aos seringueiros!

Cancelar todas as multas que inviabilizam nossa vida na floresta!

Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri

Xapuri, 17/12/2008″


Carta de um tabareu

Luis,

A quanto tempo. Sou o Zé, seu colega de ginásio, que chegava sempre atrasado, pois a Kombi que pegava no ponto perto do sítio atrasava um pouco. Lembra, né, o do sapato sujo? A professora nunca entendeu que tinha de caminhar 4 km até o ponto da Kombi na ida e na volta e o sapato sujava.

Lembra? Se não, sou o Zé com sono… hehe. A Kombi parava às onze da noite no ponto de volta, e com a caminhada ia dormi lá pelas uma, e o pai precisava de ajuda para ordenhá as vaca de madrugadinha. Dava um sono.

Agora lembra, né Luis?!

Pois é. To pensando em mudá aí pra cidade, feito você.

Não que seja ruim o sítio. Aqui é uma maravia. Mato, passarim, ar bom. Só que acho que tô estragando a vida docêis, Luis, dos teus amigo ai na cidade. To vendo todo mundo falá que nóis da agricultura tamo destruindo o meio ambiente.

Veja só. O sitio do pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que pará de estuda) fica só a meia hora aí da Capital, e depois dos 4 km a pé, só 10 minuto da sede do município. Mas continuo sem Luz porque os Poste não pode passar por uma tal de APP que criaram aqui. A água vem do poço. Uma maravia. Mas um home zangado veio e falô que tenho que fazê uma tar de ôtorga e pagá uma taxa de uso, porque a água vai acabá. Se falô deve ser verdade.

Pra ajudá com as 12 leitêra (o pai foi, né …) contratei o Juca, filho do vizinho, carteira assinada, salário mínimo, morava no fundo de casa, comia na mesa de casa com a gente, tudo de bão. Mas também veio outro home brabo aqui, e falô que se o Juca fosse ordenhá de madrugada tinha que recebe mais pru mó de uma tar de hora extra, e não podia trabaiá sábado e domingo. Defícil é ixpricá isso pras vaca. O home também visitô a casinha dele e disse que o beliche tava 2 cm menor do que devia. A comida que nóis fazia junto, tinha que fazê parte do salário dele. Coisa mais trapaiada.

Resurtado, Luis, mandei o Juca voltá pra casa, desempregado, mas protegido agora pelo tal home. Só que acho que não deu certo, soube que foi preso na cidade roubando comida. Do tal homem que veio protege ele, não sei se tava junto.

Na Capital também é assim né, Luis? Tua empregada vai pruma casa boa toda noite, de carro, tranquila. Você não deixa ela morá nas tar favela, ou beira de rio, porque senão te multam ou o homem vai aí mandar você dar casa boa, beliche boa, e um montão de outras coisa. É tudo igual aí né?

Mas agora, eu e a Maria (lembra dela? pois é, casei) fazemo a ordenha por nóis memo, de madrugada, levamo o leite de carroça até onde era o ponto da Kombi, e a cooperativa pega todo dia, se não chuvê. Se chuvê, perco o leite e dô pros porco.

Qué dizê, dava né!? Porque veio outro home com um cunversa de que a distancia da pocilga pro córgo não podia ser 20 metro e tinha que derrubá tudo e fazer a 30 metro. Também colocá umas coisa pra protegê o rio. Achei que ele tava certo e disse que ia fazê, e sozinho ia demorá uns trinta dia, só que mesmo assim ele me multô. Pra pagá, vendi os porco e a pocilga, e fiquei só com as vaca. O promotô disse que desta vez, por esse crime não vai me prendê, e fez eu dá cesta básica pro orfanato. Moço distinto o tar promotô. Tinha uma mão fina, ocê prisava vê.

Ô Luis, ai quando vocês suja o rio também paga murta, né?

Agora a água do poço posso pagá, mas tô preocupado com a água do rio. Todo ele aqui deve ser como na tua cidade Luis, protegido, com mato dos dois lado, as vaca não chega nele, não tem erosão, nem pocilga…. Só que num diantô muito, porque ele fede feito a bixiga e a água é preta que só. Já subi o rio até a divisa da Capital, e discunfio que ele vem todo sujo e fedendo aí da tua terra. Num entendi direito.

Mas ocês não faz isso né, Luis. Pois aqui a murta é braba, e dá xadrez. Aí deve ser pió. Cortá árvore então, vixe! Tinha uma árvore grande no sítio que secô, então fui falá com o tal home da pocilga. pedi pra eu tirá, aproveitá a madeira pois até podia cair em cima da casa. Como ninguém respondeu, pedi na Capital. Depois de uns 8 mês, quando a árvore morreu e tava apodrecendo, resolvi tirá, e veja só Luis, no outro dia o cabra da pocilga aqui denovo e levei otraa murta. Acho que desta vez me prende.

Tô preocupado Luis, pois no rádio deu que a nova Lei vai dá multá de R$ 500,00 a R$ 20.000,00 por hectare e por dia da propriedade que tenha algo errado por aqui. Lascô-se. Calculei por R$ 500,00 e vi que perco o sitio em uma semana. Então é melhor vendê, e ir morá onde todo mundo cuida da ecologia, pois não tem multa aí. Tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazê nada errado, só falei das coisa por ter certeza que a Lei é pra todos nóis.

E vou morar com vc, Luis. Fazê compra no tar de supermercado, onde as coisa dá sem destruir o meio ambiente.

Até Luis. É o tempo de vendê o sítio e tô aí junto docê.

N.A.:
Esse texto circula na net tendo como suposto autor Luciano Pizzatto, engenheiro florestal, especialista em direito socioambiental e empresário, diretor de Parques Nacionais e Reservas do IBDF/IBAMA 88/89, deputado desde 1989, detentor do 1º Prêmio Nacional de Ecologia.

Não sei se a autoria é verdadeira. Recebi por e-mail, gostei e postei.